quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Primeiro lugar

Provavelmente é um estado em que ninguém quer estar. Mas muitos estão. Rodeado de pessoas mas ninguém aqui dentro. O estar vazio me remete a um tempo o qual não conhecia a Cristo. Tempo em que buscava desesperadamente me preencher. Era cheia de felicidades momentâneas. Era tudo momentâneo. Hoje, sinto isso. As circunstâncias não são as melhores. Não há perspectivas. Tento, desesperadamente, encontrar dentro de mim o Deus que um dia habitou. Não tem um rastro? Um coração batendo mais forte quando se lê a bíblia ou a emoção de escutar um louvor? Onde foi parar aquele fervor quando no quarto clamava? Onde estão a alegria e o contentamento permanentes?
Talvez a conversão não tenha sido completa, a minha entrega não tenha sido completa e o que eu sentia era o calor da novidade, o calor de se sentir especial e amada por alguém. A mão Dele, aquela que me tirou lá debaixo, saiu de sob a minha cabeça? O que eu vivi era imaturidade espiritual e agora vem a realidade? Cadê aquelas lágrimas fáceis toda vez que me vinha a mente a sua morte na cruz e o porque dela? 

 É isso. Não estou vazia, estou dormente. Está aqui ainda, adormecido por falta de procura. Como um amor que se não doa diariamente, um dia se apaga. Deus não sumiu. Deus não foi embora. A minha procura que acabou, a minha doação que acabou, a minha devoção que acabou. Poderia eu, por mim mesma, alcançar a Ele sem seu intermediador? Poderia eu agora que despertei do motivo do Seu sumiço, por mim mesma, ir atrás Dele? Através da sua Graça é que posso me achegar novamente como o filho pródigo e me religar. Pai, ainda te colocando como última opção, último recurso, sei que posso me acampar em Ti novamente. Ciente dos pecados que cometi, arrependida de todos eles. Ciente do que não fiz por Ti. Ciente de, por conta própria, não ter Te mantido como minha prioridade. Os meu problemas estão grandes demais. O peso é grande demais. Não estava com tempo para o Senhor. Fui vivendo assim sem enxergar que era você, Deus, a solução de todos eles. Se passaram 6 meses e nada mudou. E sei o porque. Eu achava que o Senhor vinha em primeiro lugar na minha vida. Mas me iludi. Na verdade, não me iludi. Sabia que o Senhor não estava no topo. O amava, O adorava, mas não era minha prioridade. Agora o mundo tá desmoronando e enxerguei. O Senhor é o dono de tudo. Parece óbvio. Mas há a diferença entre saber e entender a dimensão disso. Com certeza, o Senhor está aqui. Em todos os cuidados, me cercando. Olhando pra trás eu posso ver onde o Senhor esteve o tempo todo. Aqui dentro. Não era vazio, Deus. Era dormência.

Suficientemente capaz

"Nem todas as lágrimas do mundo são capazes de traduzir a dor da sua ausência"

As coisas mudaram rápido demais em 7 meses. Saímos de 'saúde' pra 'metástase'. Saímos de certeza para dúvida. Saímos de noites tranquilas para 2,3 dias sem dormir direito. A vida é mutável. O mundo o é. 

Dia 14 de julho daquele ano doloroso comemoramos o seu aniversário. As fotos estão aqui. Dois meses e 4 dias depois eu descobri que o dia 14 de julho não teria mais bolo nem forró. 

Fui uma das primeiras pessoas a saber da sua partida. Minha tia que estava no hospital com ela que me contou. Eu gritei. O chão se abriu. Estava no carro, e por sorte no banco do carona. Eu sempre voltava dirigindo pra casa mas naquele dia resolvi que não.  Não sei. Não queria dirigir. E que bom. Deus sabe de tudo. Depois da ligação da minha tia precisei avisar aos meu irmãos. Muita coisa na cabeça naquela hora. Liguei pra mais velha ela não atendeu. Liguei pra do meio e quem atendeu foi o marido dela.
Perguntei: Cadê a Juliana?

Silêncio.

Ele só respondeu: já sei.

e deu um longo suspiro.

Disse que ia acordá-la e desligou. Não precisei falar nada ele sabia pela minha voz. O mais novo eu não liguei. Eu não ia ter força pra contar pra ele. Mil coisas passando pela cabeça. Então a mais velha me retornou a ligação e contei. Avisei que não liguei pro mais novo e que achava melhor irmos pra casa da minha mãe para pessoalmente contar, afinal ele estava sozinho em casa. Dentre as várias  ligações, a do meio me ligou de volta aos prantos. E eu chorando dizia que tínhamos que ir logo pra casa da minha mãe. O mais novo não sabia, não tinhamos tempo de ficar chorando no telefone. Chegamos na casa da minha mãe por volta 23h. Pedro atendeu o interfone, então subimos. Nas escadas eu só pensava em quem ia contar. Ele nos recebeu com uma cara de assustado. Ele não tinha ideia do que estava acontecendo. Me lembro do olhar dele, é nítido na minha mente. Ficamos ali. Em silêncio. Minhas duas irmãs, seus maridos, eu e meu marido e meu irmão. Silêncio total. Olhei pra elas. Elas não iam falar. Não podiam falar. Naquela altura já senti que quem deveria contar era eu. E eu pensava: Senhor, como eu vou contar? Eu mal consigo olhar pra ele. E não coseguia mesmo. Bom, ele já tinha 18 anos mas ainda assim era o mais novo, o caçula. E olhar pra ele e pensar que dali pra frente ele teria que viver sem a mãe...me doía. 
E Deus me muniu de coragem pra dar a notícia. Falei. Eu tô escrevendo isso e lembrando do rosto do meu irmão. E a reação dele foi, em silêncio, buscar água pra todo mundo. Ele saiu e nos serviu água. Depois de todos servidos ele sentou na mesa e, ainda em silêncio, chorou. 

Deus me deu uma missão naquele dia: avisar aos meus irmãos que a nossa mãe não estaria mais com a gente. Não aqui.

Me deu a mais difícil das missões. Da qual me questionei desde o momento da primeira ligação. Da qual eu, enquanto subia as escadas do prédio, pedia pra que não me fosse dada. Não queria eu, ser a porta-voz da notícia. Mas fui. Porque Deus quando age, usa o que quiser e quem quiser. Eu quis fugir da missão. Eu neguei a missão. Eu pedi pra que não me fosse dada aquela missão. Era aquela missão em específico que eu não queria ter. Mas Deus me fez cumprir. Naquele momento, eu era a escolhida. E amém por isso.

Me usou por misericórdia, por amor. Pouco tempo depois eu entendi porque tinha de ser eu. Ele vinha me preparando. Me alimentando com sua Palavra, me rodeando de novos irmãos na fé, e pela sua misericórdia e não mérito meu, me enchendo de sabedoria praquele momento. 
Eu achei que não era capaz. Eu disse pra Ele que não iria conseguir. Ele não ouviu os julgamentos que eu tinha de mim mesma. Ele me sondou. Ele me usou e me provou que quem sabe do meu coração é Ele. Não que Ele precise de mim para alguma coisa, mas Ele que rege todas as coisas faz com que elas aconteçam do jeito que tem que ser. 

Aprendi que eu, pecadora, imerecedora de qualquer Graça, posso ser alguém melhor com Ele. O meu Pai. O que nunca me abandonou e que acredita em mim, mesmo quando nem eu acredito que sou capaz. 

Eu continuo não sendo apta pra nada e nem me tornarei um dia. Mas a misericórdia Dele me torna suficiente.