quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Suficientemente capaz

"Nem todas as lágrimas do mundo são capazes de traduzir a dor da sua ausência"

As coisas mudaram rápido demais em 7 meses. Saímos de 'saúde' pra 'metástase'. Saímos de certeza para dúvida. Saímos de noites tranquilas para 2,3 dias sem dormir direito. A vida é mutável. O mundo o é. 

Dia 14 de julho daquele ano doloroso comemoramos o seu aniversário. As fotos estão aqui. Dois meses e 4 dias depois eu descobri que o dia 14 de julho não teria mais bolo nem forró. 

Fui uma das primeiras pessoas a saber da sua partida. Minha tia que estava no hospital com ela que me contou. Eu gritei. O chão se abriu. Estava no carro, e por sorte no banco do carona. Eu sempre voltava dirigindo pra casa mas naquele dia resolvi que não.  Não sei. Não queria dirigir. E que bom. Deus sabe de tudo. Depois da ligação da minha tia precisei avisar aos meu irmãos. Muita coisa na cabeça naquela hora. Liguei pra mais velha ela não atendeu. Liguei pra do meio e quem atendeu foi o marido dela.
Perguntei: Cadê a Juliana?

Silêncio.

Ele só respondeu: já sei.

e deu um longo suspiro.

Disse que ia acordá-la e desligou. Não precisei falar nada ele sabia pela minha voz. O mais novo eu não liguei. Eu não ia ter força pra contar pra ele. Mil coisas passando pela cabeça. Então a mais velha me retornou a ligação e contei. Avisei que não liguei pro mais novo e que achava melhor irmos pra casa da minha mãe para pessoalmente contar, afinal ele estava sozinho em casa. Dentre as várias  ligações, a do meio me ligou de volta aos prantos. E eu chorando dizia que tínhamos que ir logo pra casa da minha mãe. O mais novo não sabia, não tinhamos tempo de ficar chorando no telefone. Chegamos na casa da minha mãe por volta 23h. Pedro atendeu o interfone, então subimos. Nas escadas eu só pensava em quem ia contar. Ele nos recebeu com uma cara de assustado. Ele não tinha ideia do que estava acontecendo. Me lembro do olhar dele, é nítido na minha mente. Ficamos ali. Em silêncio. Minhas duas irmãs, seus maridos, eu e meu marido e meu irmão. Silêncio total. Olhei pra elas. Elas não iam falar. Não podiam falar. Naquela altura já senti que quem deveria contar era eu. E eu pensava: Senhor, como eu vou contar? Eu mal consigo olhar pra ele. E não coseguia mesmo. Bom, ele já tinha 18 anos mas ainda assim era o mais novo, o caçula. E olhar pra ele e pensar que dali pra frente ele teria que viver sem a mãe...me doía. 
E Deus me muniu de coragem pra dar a notícia. Falei. Eu tô escrevendo isso e lembrando do rosto do meu irmão. E a reação dele foi, em silêncio, buscar água pra todo mundo. Ele saiu e nos serviu água. Depois de todos servidos ele sentou na mesa e, ainda em silêncio, chorou. 

Deus me deu uma missão naquele dia: avisar aos meus irmãos que a nossa mãe não estaria mais com a gente. Não aqui.

Me deu a mais difícil das missões. Da qual me questionei desde o momento da primeira ligação. Da qual eu, enquanto subia as escadas do prédio, pedia pra que não me fosse dada. Não queria eu, ser a porta-voz da notícia. Mas fui. Porque Deus quando age, usa o que quiser e quem quiser. Eu quis fugir da missão. Eu neguei a missão. Eu pedi pra que não me fosse dada aquela missão. Era aquela missão em específico que eu não queria ter. Mas Deus me fez cumprir. Naquele momento, eu era a escolhida. E amém por isso.

Me usou por misericórdia, por amor. Pouco tempo depois eu entendi porque tinha de ser eu. Ele vinha me preparando. Me alimentando com sua Palavra, me rodeando de novos irmãos na fé, e pela sua misericórdia e não mérito meu, me enchendo de sabedoria praquele momento. 
Eu achei que não era capaz. Eu disse pra Ele que não iria conseguir. Ele não ouviu os julgamentos que eu tinha de mim mesma. Ele me sondou. Ele me usou e me provou que quem sabe do meu coração é Ele. Não que Ele precise de mim para alguma coisa, mas Ele que rege todas as coisas faz com que elas aconteçam do jeito que tem que ser. 

Aprendi que eu, pecadora, imerecedora de qualquer Graça, posso ser alguém melhor com Ele. O meu Pai. O que nunca me abandonou e que acredita em mim, mesmo quando nem eu acredito que sou capaz. 

Eu continuo não sendo apta pra nada e nem me tornarei um dia. Mas a misericórdia Dele me torna suficiente.

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